Historieta III
Era meia-noite quando ele surgiu. Hora encantada e lugar comum. Surgiu como o que se espera de uma epifania, de repente e de lugar nenhum.
Estávamos eu e o padre, sentados. Uma mesa de tequila e riso, com a igreja iluminada ao fundo. O sabor de queijo e a fala macia, era um crepe divino. Não notamos a sua chegada. Não havia o que notar. Ele estava ali, como se sempre o fizera.
Seu nome era Expedito, um velhinho desses de histórias da roça. “Querem amendoim?” Postou-se, em pé, ao nosso lado, e assim ficou. Até que o convidei para uma bebida. “Não posso, minha idade não permite.” “Então, tome um café.” Convite aceito, agora éramos eu, o padre e seu Expedito.
Ele deitou a falar sobre suas vivências pelas ruelas de São João del Rey. De quando entrou no seminário, apaixonou-se por uma freira, e achou-se o demônio. Durante toda a sua vida, fôra atormentado por este pensamento, a dúvida a respeito de sua filiação. Se era o diabo, ou parente do demo. Até que encontrou sua Marília, e sossegou um pouco das perturbações metafísicas.
Foi esse momento em que me dei conta. Havia algo ali. Talvez escondido entre as rugas, talvez naquele sorriso de anjo barroco. Enquanto ele falava, eu me desesperava por saber que Aleijadinho havia forjado aqueles oitenta e quatro anos. Era mais que Expedito, era mais que um velho e seu acaso, era uma espécie de revelação. Uma aparição, logo ali, ao meu lado.
E eu, que não sou muito afeito a êxtases místicos, saboreava tão intensamente aquela manifestação divina que não me apercebi da despedida. Nem reparei os olhos marejados do padre. Muito menos fui capaz de provar o amendoim. “Era ele, era ele”, dizia o padre. E eu estático, como um monge em oração.
Um anjo torto, drummondiano, estivera ali. Ou o demônio, ou seu parente. Estivera ali, ao meu lado. Algo perdido, entre o negrume por trás de seus óculos. Aprumei o cachecol, sorvi um gole de tequila, e ri. Ri a noite inteira.
25 25e Junho, 2007 em 5:59 pm
Cheguei aqui pela lista MMC. Os textos são muito legais. Fica com Deus.
25 25e Junho, 2007 em 7:47 pm
Sempre me deleito com teus versos.
Bjs
26 26e Junho, 2007 em 8:27 am
Muito bom, narrativa envolvente. Valeu o comentário no ‘fábrica’. Abraços!
27 27e Junho, 2007 em 9:39 am
E será que há algo mais pálido que o ponto?
Gostei do seu blog, assim que puder, lerei os outros textos. =)
27 27e Junho, 2007 em 1:55 pm
Caro Renato,
Agradeço pela visita. Fique com Deus, também.
Abraços.
27 27e Junho, 2007 em 1:56 pm
Sil,
E o que seria de meus versos sem você?
Beijos, beijos, beijos.
Todos os beijos do mundo.
27 27e Junho, 2007 em 2:00 pm
Alexandre,
Agradeço pelos elogios. A tua “fábrica” merece muitos comentários.
Abraços.
27 27e Junho, 2007 em 2:04 pm
Cara Giseli,
Obrigado pela visita. Apareça sempre.
Abraços.
27 27e Junho, 2007 em 6:58 pm
Farei o mesmo!
Abraços.
3 03e Julho, 2007 em 11:22 am
Essa vontade de saber das pessoas me fascina. Às vezes é tudo que quero conhecer, de onde elas surgem, quais as histórias, os quadros… aprender sobre elas me acrescenta…
20 20e Dezembro, 2007 em 8:52 am
Um verdadeiro fazedor de sonhos.Reconstrua e deixe essa fábrica sempre em pleno funcionamento.
Parabéns!!Gostei de passear meus olhos por aqui.
besos, besos.