Estou em São Paulo, terra estrangeira. Vou morar por aqui, pelo menos pelos próximos três anos. Mais um carioca entre os uivos bandeirantes.
Ontem, jantei no Mosteiro de São Bento, a convite do abade. Celebramos as vésperas de maneira especial, pelo dia do santo de Núrsia. Senti-me num filme medieval. Todos em silêncio obrigatório, e os noviços nos servindo. Enquanto nos deleitávamos com o jantar (pelo visto, o pecado da gula foi abolido do índex…), um monge fazia leituras inspiradoras. Falou de Agostinho.
Já é patrimônio da humanidade o relato da conversão de Agostinho. A profunda crise existencial por que passava. A procura por algo que ele mesmo não sabia o que era. O momento de angústia e desespero nos jardins de Alípio. E a voz de menino, entoando o canto infantil. Tolle, lege. Tolle, lege.
Toma e lê.
Estou em São Paulo, terra estrangeira. Estou nos jardins de Alípio. E, se quiser me encontrar, preciso revestir-me de algo que não sou. Revestir-me do Outro. Preciso tomar o livro da vida, e lê-lo. Preciso ouvir, ao longe, escondido entre os ruídos insanos, a velha cantiga de criança.
Tolle, lege. Tolle, lege.
Escrito por Caminhante