Historieta I

18 18e Junho, 2007

Ele na mesa dois. Ela, mesa cinco. Nada mais que três metros os separam. Olhares se cruzam, vez por outra. Ele não se agüenta de vontade. Quer conhecer que olhos negros são esses. Que penumbra, que mistério. “Garçom, traz um chope. Preto.” O pior é o ângulo. Sabe-se lá o que passa na mente do destino, geômetra dos desejos, para colocar aquelas pernas à vista. Ela se diverte. Pernas pro lado, cruza as pernas. Olha pro lado, cruzam-se olhares. Volta a observar, ilesa, a revista em folhas brancas como sua pele e a mesa. Lisas. Ele, buscando onde se perdeu a coragem. E aqueles olhos negros, meu Deus! Que densas trevas onde se afunda o incauto. “Garçom, traz um gim. Puro.” É o que falta. Calor para dar o primeiro passo. Ele se levanta. Ela se retesa. Ele se aproxima. Ela olha o nada. Ele tosse baixo. Ela morde os lábios. Eles enrubescem. Então… Ela se prepara. Ele se desfaz. Ela espera. Ele desvia. Eles não acreditam. Ao invés do caminho da mesa, ele toma a direção do banheiro. Fica lá por uns bons dez minutos. Retomando a ar e planejando a nova investida. Sai decidido. Não é toda hora que se encontram dois olhos tecidos da noite. Pasma. Ela já foi. Na mesa, só a conta e o dinheiro. Com gorjeta. Ele senta, pensativo. “Garçom, traz meu Chivas. Duplo.”

 (em junho de 2004)

a caminho

18 18e Junho, 2007

Uma tentativa de recomeço. Preciso escrever. No início, por falta de tempo, voltarão à vida - em terra nova - alguns textos antigos. No momento certo, textos novos, criaturas ambulantes, pulularão.