Historieta V

25 25UTC julho, 2007

Aquela hora era a temida por todos, a desdita. Nenhum manto negro se avizinhava, nenhuma foice, nenhum tabuleiro de xadrez bergmaniano, nenhuma risada macabra. Era tudo muito mais simples e sereno do que imaginara. No entanto, alguma ansiedade era inevitável.

João já se preparava para aquele momento há algum tempo. Revisara a documentação, certificara-se da atualidade dos seguros, enredara-se em conversas intermináveis com gerentes de banco. Tudo para que fosse garantida uma sobrevida razoável à dona Milu. E não se podia esquecer de Branquinha, é claro. A poodle, que era um vestígio vivo do passado.

Durante toda a sua vida, João tivera uma poodle consigo. E, durante toda a sua vida, a poodle chamara-se Branquinha. Era uma forma de eternizar um instante, manter uma memória sempre-viva. Tornar uma promessa inolvidável.

Aos dezoito anos, João conhecera a mulher. Como um vento lépido, ela caminhava pelo parque, acompanhada de sua Branquinha – a primeira de uma dinastia sempiterna. Depois, tudo acontecera muito rápido e quente, como nos folhetins românticos. A apresentação, o encontro, os beijos, as noites lânguidas, o noivado, as noites lânguidas, os beijos. E, por fim, a data do casamento.

No dia marcado, céu azul, duas ou três nuvenzinhas distantes, a mulher demorava, demorava. Os convidados incomodados, o jovem reverendo repassando os votos matrimoniais, e João pressentindo o golpe. E, pouco depois, acusando o golpe. A mulher não aparecera. Os convidados se foram, o jovem reverendo se acomodara em seu gabinete, e João fazia uma promessa no altar: no momento exato de sua morte, quando – diz-se – toda a vida é repassada num instante, ele não permitiria que aquela mulher lhe invadisse o pensamento, nem por um único átimo de tempo.

Por isso, agora, quando os segundos finais se aproximavam, era o tempo de recordar outras coisas. Um dia frio, com muito vento, em que o pai abandonara o trabalho e o levara para empinar pipas com ele. A pipa subindo, alto, alto, e o pai sorrindo, forte. João quisera tanto, a vida inteira, ser como o pai. Mas o pai não carregava lembranças, nenhumas, nem boas nem más. Ao contrário dele, que se amargurava até o último instante com a memória da mulher.

Mas, não! Ele haveria de cumprir sua promessa. Não encontraria a morte pensando na mulher. Lembrou de sua formatura, o auditório repleto e um único rosto conhecido: sua mãe, velha, recostada na poltrona da primeira fila. Prometera não chorar, mas como ignorar as lágrimas da mãe? Aquelas lágrimas pediam companhia. João sabia bem o que era aquilo. Quantas vezes quisera alguém para dividir as lágrimas amargas que fizera jorrar por causa da mulher.

João respirou fundo. Justo agora, no segundo derradeiro, não poderia deixar uma reminiscência faze-lo quebrar a promessa. Pensou no primeiro dia que viu o rio Doce. O pai, a mãe e ele. Cheiro de pão e café. Brincadeira de seguir a fila das formigas. A água fria, um gelo, e João, arrepiado ao toque da brisa. Céu azul, duas ou três nuvenzinhas distantes. Como agora, quando olhava pro céu. Como naquele dia maldito. João achou que uma nuvem lembrava Branquinha. E o céu, uma fazenda bonita como a que a mulher usava. Um sorriso lindo, os beijos, as noites lânguidas. Aquela mulher sempre soubera como lhe sorrir. Como agora.

Fechou os olhos, tranqüilo. Há promessas que não devem ser cumpridas.

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Tolle, lege.

11 11UTC julho, 2007

Estou em São Paulo, terra estrangeira. Vou morar por aqui, pelo menos pelos próximos três anos. Mais um carioca entre os uivos bandeirantes.

Ontem, jantei no Mosteiro de São Bento, a convite do abade. Celebramos as vésperas de maneira especial, pelo dia do santo de Núrsia. Senti-me num filme medieval. Todos em silêncio obrigatório, e os noviços nos servindo. Enquanto nos deleitávamos com o jantar (pelo visto, o pecado da gula foi abolido do índex…), um monge fazia leituras inspiradoras. Falou de Agostinho.

Já é patrimônio da humanidade o relato da conversão de Agostinho. A profunda crise existencial por que passava. A procura por algo que ele mesmo não sabia o que era. O momento de angústia e desespero nos jardins de Alípio. E a voz de menino, entoando o canto infantil. Tolle, lege. Tolle, lege.

Toma e lê.

Estou em São Paulo, terra estrangeira. Estou nos jardins de Alípio. E, se quiser me encontrar, preciso revestir-me de algo que não sou. Revestir-me do Outro. Preciso tomar o livro da vida, e lê-lo. Preciso ouvir, ao longe, escondido entre os ruídos insanos, a velha cantiga de criança.

Tolle, lege. Tolle, lege.


Historieta IV

2 02UTC julho, 2007

Ele aparecia toda manhã naquele boteco ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa. Pedia um café forte. Cumprimentava as pessoas com uma expressão indecifrável, mas nunca olhava nos olhos. O Ligeiro não cobrava o café. Sentia pena dele. Dizia que o nêgo era um mendigo incomum.

O nêgo não tinha nome conhecido. Era João, era Zé, era Pulga, era Zulu. Era o nêgo. Os mais velhos diziam que ele morava no Centro há mais de vinte anos. Não era muito afeito a mudanças. Gostava de se recostar no Camões, e deitava sempre na escadaria dos fundos do Instituto de Filosofia.

Um dia, deram uma vitrola portátil pro nêgo. Daquelas antigas, que funcionavam com oito pilhas grandes. O paraíba da Carioca lhe trazia pilhas novas toda semana. E o nêgo ficava ali, olhando a vitrola girar. Girando, Girando. Guardava a vitrola com ele. Forjou uma mochila de trapos, e carregava a vitrola. Ele era nêgo, o canguru do Centro.

A origem de nêgo era um mistério. Diziam que ele morava no morro da Mangueira. Que foi casado com Ana (antes Sebastiana, antes Tiana). Que teria encontrado a mulher na cama com um amigo. Que, incapaz de transformar em ato sua vontade, resolveu virar ermitão urbano.

O nêgo nunca foi visto sorrindo. A não ser num único dia. E por uma única pessoa. Quando ganhou um vinil velho, com sambas de Cartola e Nelson. Agora a vitrola não girava apenas, a vitrola cantava. Seu Aristides jurou que viu o nêgo rindo, ou chorando, ele não lembrava bem. A vitrola passou horas ligada, girando. Como num milagre bíblico, o samba continuava e as pilhas não acabavam. Seu Aristides jurou que viu o nêgo balbuciando aquelas suas palavras, numa língua estranha, como um rei zulu.

Na hora em que o largo começava a virar formigueiro, miríade de gentes, meninas da Tiradentes indo e voltando, Ligeiro deu falta do nêgo. O boteco amanheceu sem o café forte. Foi o Lico, polícia, quem avisou. Ligeiro encontrou o Camões meio rubro. Achou que de raiva, ou de vergonha. A mochila de trapos rasgada, a vitrola roubada. Uns rabiscos, desenhos. E uma foto. Uma negra linda, uma rainha. E um trecho de um samba de Nelson. Em Mangueira, quando morre um poeta, todos choram.

Acenderam uma vela pro nêgo na Lampadosa e queimaram a foto.