Epitáfio

25 25UTC junho, 2007

Quando o lado vira ao longe,
Traz o vão por onde eu saio,
Com sussurros, devaneios,
E olhadelas de soslaio.
Vou-me andando entre as distâncias
E por isso me retraio.

E se a rima, antes clara,
Vê-se cega em seu antolho,
Já perdeu-se o que nascera
Revirado num restolho.
Sei se o canto desafina
E por isso me recolho.

Versos soltos, pesos mortos,
No canteiro onde miro,
São resquícios de um mundo
Que soçobra num suspiro.
A palavra já não voa
E por isso me retiro.


Sonho

21 21UTC junho, 2007

Noite num balneário fluminense, mar de idiomas e sotaques. Praça do centro, gente de todos os cantos chegando. Barracas de algodão doce e de cachorro quente. Crianças, risos e correria. Cadeiras brancas comportadamente enfileiradas. Começa a apresentação. No palco, o velho e bom Fito. Nuvens carregadas no céu. Canta-se a belíssima 11 y 6. Começa a chover. Cadeiras deixadas de lado, outras usadas sobre a cabeça. Todos vão para a frente, sentados ao chão. Eu e ela, sentados, juntos, guarda-chuva aberto. “Miren todos, ellos solos / pueden más que el amor. (y son mas fuertes que el Olimpo) / Se escondieron en el centro y en el baño de un bar, / sellaron todo con un beso.” Entreolhamo-nos. Selamos tudo com um beijo. Que noite, que noite!

(junho de 2004)