Epitáfio

25 25UTC junho, 2007

Quando o lado vira ao longe,
Traz o vão por onde eu saio,
Com sussurros, devaneios,
E olhadelas de soslaio.
Vou-me andando entre as distâncias
E por isso me retraio.

E se a rima, antes clara,
Vê-se cega em seu antolho,
Já perdeu-se o que nascera
Revirado num restolho.
Sei se o canto desafina
E por isso me recolho.

Versos soltos, pesos mortos,
No canteiro onde miro,
São resquícios de um mundo
Que soçobra num suspiro.
A palavra já não voa
E por isso me retiro.


Sonho

21 21UTC junho, 2007

Noite num balneário fluminense, mar de idiomas e sotaques. Praça do centro, gente de todos os cantos chegando. Barracas de algodão doce e de cachorro quente. Crianças, risos e correria. Cadeiras brancas comportadamente enfileiradas. Começa a apresentação. No palco, o velho e bom Fito. Nuvens carregadas no céu. Canta-se a belíssima 11 y 6. Começa a chover. Cadeiras deixadas de lado, outras usadas sobre a cabeça. Todos vão para a frente, sentados ao chão. Eu e ela, sentados, juntos, guarda-chuva aberto. “Miren todos, ellos solos / pueden más que el amor. (y son mas fuertes que el Olimpo) / Se escondieron en el centro y en el baño de un bar, / sellaron todo con un beso.” Entreolhamo-nos. Selamos tudo com um beijo. Que noite, que noite!

(junho de 2004)

Historieta II

18 18UTC junho, 2007

Eles se amavam. Por cartas. Lá, entre a tinta e o papel, é que se encontravam. Se encontravam em potência, e desejavam em ato.
Ana era letra redonda. Suspirava poesias numa caligrafia desenhada. Passeava os olhos entre a escrivaninha e a janela, como que a esperar. Não sabia bem o quê, se o carteiro ou o amado. Mas passeava os olhos, como que a esperar.

Tomé era letra inclinada. Inclinada e comprida. Parecia querer chegar antes. Enquanto escrevia, era só mão e pena. Acentos e cedilhas eram alvo de volúpia, como um beijo inesperado. Não sabia bem quem lhe despertava a paixão, se o perfume da carta ou o odor da tinta. Mas devotava volúpia, como um beijo inesperado.

Assim foram dias, meses. Ano e meio. E as cartas contavam o tempo. Com rigor e método. Uns dias, desejo; outros, canção. Uns dias, Ana era a um só tempo tanto rubor e quentura que sua mãe corria para a vila a chamar o médico. Outros dias, Tomé era tanto riso frouxo que seu pai o julgava amalucado. E as cartas contavam o tempo. Estações. Cartas quentes, frias, secas, encharcadas.

Num dia, feriado nos correios, decidiram se encontrar. Seriam Tomé e Ana, Ana e Tomé. Seriam mais que abecedários amantes. E, para mútua surpresa, as próximas cartas denunciavam o desejo que ambos tiveram no mesmo dia. Feriado nos correios.

Durante dois meses exatos, nem mais e nem menos, planejaram à exaustão. Tomé era texto em prosa, quase lógico. Cabia-lhe os detalhes, o local, o dia, a hora, e até mesmo as palavras. Ana era verso puro, alexandrino. Vaticinava os suspiros, as mãos dadas, olhos apaixonados, e o beijo. Sim, o beijo.

No domingo de Pentecostes, manhã cedinho, Ana saiu de casa e Tomé chegou à estação. Foram em direção da Igreja. Seus corações, faces e sangue, vermelhos como os paramentos do ambão e do altar. Subiram à fila para a comunhão. Ana à frente, Tomé atrás. Comeram o corpo de Cristo e pensaram. Pensaram que aquilo era a celebração da saudade. Pensaram que a saudade só nasce da ausência. Comeram o corpo de Cristo e sentaram.

Depois do Aleluia, saíram pela mesma porta. Ana viu, mas fez que não viu. Tomé fez que não viu, mas viu. O floricultor ensaiou uma saudação e Ana parou, aspirando até encher os pulmões de rosa. O jornaleiro gritou e Tomé parou, lendo as manchetes mais rápido do que poderia. Alguns minutos passados e alguns trocados a menos, Ana e Tomé, Tomé e Ana, voltaram para suas casas.

Já na terça-feira, houve trabalho para o correio. Desta vez, Ana é quem foi volúpia, letra nua e ardente. Desta vez, foi Tomé a poesia, letra bela e lírica. E, assim, viveram suas vidas, em íntima comunhão. Fizeram de suas escrivaninhas verdadeiros altares eucarísticos. Celebraram a ausência e a saudade. E se amaram perdidamente entre os lençóis de suas cartas. Pois era assim que se amavam.

(em março de 2005)

Historieta I

18 18UTC junho, 2007

Ele na mesa dois. Ela, mesa cinco. Nada mais que três metros os separam. Olhares se cruzam, vez por outra. Ele não se agüenta de vontade. Quer conhecer que olhos negros são esses. Que penumbra, que mistério. “Garçom, traz um chope. Preto.” O pior é o ângulo. Sabe-se lá o que passa na mente do destino, geômetra dos desejos, para colocar aquelas pernas à vista. Ela se diverte. Pernas pro lado, cruza as pernas. Olha pro lado, cruzam-se olhares. Volta a observar, ilesa, a revista em folhas brancas como sua pele e a mesa. Lisas. Ele, buscando onde se perdeu a coragem. E aqueles olhos negros, meu Deus! Que densas trevas onde se afunda o incauto. “Garçom, traz um gim. Puro.” É o que falta. Calor para dar o primeiro passo. Ele se levanta. Ela se retesa. Ele se aproxima. Ela olha o nada. Ele tosse baixo. Ela morde os lábios. Eles enrubescem. Então… Ela se prepara. Ele se desfaz. Ela espera. Ele desvia. Eles não acreditam. Ao invés do caminho da mesa, ele toma a direção do banheiro. Fica lá por uns bons dez minutos. Retomando a ar e planejando a nova investida. Sai decidido. Não é toda hora que se encontram dois olhos tecidos da noite. Pasma. Ela já foi. Na mesa, só a conta e o dinheiro. Com gorjeta. Ele senta, pensativo. “Garçom, traz meu Chivas. Duplo.”

 (em junho de 2004)

a caminho

18 18UTC junho, 2007

Uma tentativa de recomeço. Preciso escrever. No início, por falta de tempo, voltarão à vida – em terra nova – alguns textos antigos. No momento certo, textos novos, criaturas ambulantes, pulularão.